será que é cedo?

o que me faz escrever é o tempo
não que eu o tenha
muito menos que ele sobre
mas ele passa
e me atravessa
me tira um pouco
e traz um tanto

às vezes pra me esvaziar
às vezes pra me transbordar
às vezes pra me explodir

o que me faz escrever é sentir
querer demais
ser demais
estar demais
acreditar demais
me machucar demais

tanto
que às vezes me esvazio

o que me faz escrever é amor
porque o amor tá no tempo
no tempo que a gente se dispõe
no tempo que a gente compõe
no tempo que a gente tem
quando a gente dá

tanto
que às vezes transbordo

o que me faz escrever é você
que me faz querer ficar
que me faz querer compôr
que me tira um sorriso
e me tira pra dançar
que me desarma
e me ganha
e me rouba
o ar

um papel não é tão frágil quanto parece

quando se rasga a folha do papel,
não se quebra o tempo

dobra

quantas taças eu preciso beber
pra aprender a voar?

e se o céu for o mesmo
mas as direções opostas?

em terras distantes
seria possível seguir o mesmo caminho?

os dias dançam
e eu já perdi a conta.

o mesmo céu
não significa o mesmo chão
nem o mesmo caminho

eu existo muito antes de pensar
eu (te) quis muito antes de entender

porquê

quando se rasga a folha do papel,
não se quebra o tempo

dobra

e quando fecho os olhos
existem dois corpos
e o mesmo lugar

num espaço que se perdeu do

tempo

das coisas que eu guardo

das coisas que eu guardo

às vezes eu guardo memórias de um passado que eu queria que fosse presente
às vezes eu guardo projeções de um futuro que já é passado
às vezes eu guardo melancolia
por querer mais, querer demais
às vezes eu guardo tristeza
por lembrar demais, esquecer demais
às vezes não guardo nada
e isso pode doer demais
mas às vezes eu guardo amor
um beijo bom pra te dar
minhas mãos pra você segurar
e uma vida toda pra compartilhar
e eu também guardo palavras
essas, que transformo em verso
essas, que já são saudade
antes mesmo de existir