[2:59 AM] aí a vontade de te beijar volta (não que tenha passado)
te convidei pra ir ao teatro, você não foi, teve um imprevisto, como sempre.
eu sou sempre pra depois.
você diz que adora musicais, eu achei que criaríamos uma boa memória juntos assistindo à revolução dos saltimbancos no palácio das artes.
mas você não quis ir.
ou não pôde.
mas você não foi e eu joguei o seu ingresso fora, eu não queria mais ninguém sentado ao meu lado.
eu queria você.
enquanto as galinhas, gatos, cachorros e crianças cantavam os meus olhos brilhavam, o coração batia e o meu mindinho doía a cada momento que eu dava um sorriso e olhava pro lado esperando ter alguém com quem compartilhar aquele instante de fantasia.
alguém não.
você.
mas você não foi e eu perdi o seu ingresso.
mas aí você apareceu no fim do espetáculo, quando eu estava esperando os artistas saírem no salão.
eu demorei, você esperou.
eu prendia o choro, queria te ver, mas o momento da magia e do brilho nos olhos já acabou.
quando eu finalmente saí, vi você me esperando no carro, senti o nó na garganta e meu coração parou.
você ainda tava lá, o brilho nos meus olhos também.
- desculpa eu ter demorado tanto, eu disse.
- tudo bem, eu fiquei ouvindo o jogo no rádio, você disse.
eu esperei um beijo, mas aquela circunstância não era uma das vezes em que você sentia vontade.
senti o mindinho.
eu botei o cinto, você ligou o carro e eu só conseguia pensar em como eu poderia passar as minhas noites atravessando a cidade com você.
mas eu queria um beijo.
eu queria que você quisesse me beijar.
descemos do carro e minhas mãos procuravam as suas como um ímã, mas você foi mais rápido na caminhada e eu não te alcancei.
acho que faltavam alguns milímetros, eu quase pude te sentir.
paramos pra comer, minhas mãos tremiam e eu ainda não sei se era o frio ou o ímã, mas o meu corpo queria encostar no seu.
- mesa para dois, por favor.
éramos eu, você e o jogo passando na televisão.
nesse dia eu não consegui ver nada, eu só olhava pra você, não queria perder a chance de olhar nos seus olhos e garantir que eu estaria pronta pra você me beijar.
quando sentamos, coloquei minha cadeira perto da sua.
novamente, eu esperei um beijo, mas aquela também não era uma das vezes em que você sentia vontade.
eu sentia.
eu sempre sinto.
eu ainda sinto.
conversamos por horas, eu não consegui terminar o meu lanche e você deve achar que eu sempre jogo a minha comida fora, quando na verdade, eu mal consigo comer perto de você porque meu corpo não consegue pensar em fome quando tá absolutamente concentrado trabalhando para não me fazer desmaiar na sua frente de tanta ansiedade.
conversamos sobre tantas coisas, você começou a deixar suas pernas se aproximarem e meu coração bateu mais forte.
dessa vez eu desejei não só o seu beijo, mas você inteiro.
pensei que você estava aguardando para que tivéssemos o melhor na hora certa.
eu desejei que fôssemos pra sua casa e que a noite se transformasse em um bom dia.
suas mãos encostaram nas minhas pernas, carinhosamente, eu via nos seus olhos o mesmo que estava nos meus.
mas parece que o seu "às vezes" é um pouco mais complicado do que eu consigo entender.
estávamos voltando para o carro e a lágrima invisível que escorria por dentro da anatomia do meu corpo se transformou em um nó bem grosso na minha garganta.
antes que eu entrasse, você abriu a porta do carro pra mim e em um ímpeto de quem é fã de comédia romântica e contos de fada eu queria te roubar um beijo.
te dei um abraço, mas antes que eu pudesse tentar me aproximar do seu rosto, você foi mais rápido que eu e, novamente, não te alcancei.
de novo, o mindinho.
no carro, você disse que me levaria a um lugar especial e o nó da garganta começou a se dissolver, talvez o momento ainda fosse existir, afinal.
você se lembrou da minha paixão por sorvetes e lembrou que eu estava vivendo uma saga para provar os sabores da cidade, queria me apresentar um sabor novo.
mal sabia que eu só queria provar o seu outra vez.
a sorveteria estava fechando bem na hora que chegamos, coisa de filme.
igual o seu coração quando eu cheguei, coisa de filme.
- um dia a gente volta, você vai gostar, você disse.
eu não sei o que respondi, mas ainda lembro daquela esquina em que meus olhos sequer piscaram, tentando registrar o momento em que tanto o carro quanto a minha vida estavam simultaneamente em uma encruzilhada.
eu pisquei, você seguiu o caminho e eu me vi pensando em como eu poderia passar as minhas noites tentando encontrar uma sorveteria aberta na cidade.
mas eu queria que você quisesse me levar e contar sobre você.
queria que você quisesse criar memórias comigo.
e um beijo, eu queria um beijo.
eu queria que você quisesse me beijar.
você me levou em uma padaria pra gente comprar algo doce de sobremesa e eu adorei ouvir você contar sobre as outras vezes que você esteve lá e o que tinha de diferente, como está agora, o que eu deveria provar, como a gente deveria voltar e provar mais coisas.
as minhas mãos ainda procuravam as suas como um ímã, mas você continuava inalcançável.
eu disse que pagaria essa conta como presente de aniversário e lembrei que eu tinha na bolsa um chocolate que trouxe da minha viagem pra você.
na verdade, eu tava tentando te entregar desde que entrei no carro e os jogadores ainda estavam em campo, mas eu não sabia se a gente duraria mais do que dois minutos e talvez você não gostasse de chocolate.
- é um dos chocolates mais gostosos que eu já provei, queria que você estivesse lá comigo, acho que você vai gostar, eu disse.
- trouxe pra você, eu deveria ter dito.
- obrigado, vou provar quando chegar em casa, você disse.
- espero que você goste, eu disse.
eu ainda queria um beijo seu, mas a essa altura, eu já sabia que não aconteceria.
voltamos para o carro, você me levou pra casa.
- você tá com sono, pressa ou tem algum compromisso? eu te perguntei.
- não é por nada, eu só queria passar mais um tempo com você, conversar, a gente podia descer ali na lagoa ou na praça e esperar um pouco, se você puder, eu me justifiquei, com a voz embargada, tentando não olhar nos seus olhos, com medo da sua resposta.
- tudo bem, podemos ir, você disse.
na praça, preferimos ficar no carro, o que eu achei ótimo.
(no fundo, acho que eu ainda esperava um beijo seu.)
era janeiro, conversamos sobre os planos para o ano, conversamos sobre família, viagens, trabalho, aspirações e desejos.
- e quais os seus planos sobre a gente? eu finalmente perguntei, com as mãos suando, os lábios tremendo, a respiração ofegante e o coração quase parando.
- nenhum, você respondeu, assim, tão objetivamente que eu não sei como eu ainda esperava ouvir algo diferente disso.
o mindinho me avisou e os olhos não mais seguraram o que já estava preso há algumas horas desde a visita ao palácio onde moravam os saltimbancos.
eu te contei, mais uma vez, tudo o que eu tava sentindo.
eu te perguntei, mais uma vez, porque você continuava me trazendo pra você.
eu disse que, depois de alguns meses de "não sei" e "às vezes", eu não queria mais.
eu te contei, mais uma vez, que eu tava sentindo muita coisa e que eu tava disposta a insistir se ainda fizesse sentido, mas que eu não podia querer sozinha.
- eu não quero isso mais, I said casually in the car.
olhei nos seus olhos, o seu rosto se transformava em tristeza e eu sabia que você também não queria dizer adeus.
mas você nunca conseguiu ficar.
você nunca quis ficar.
você disse que eu sou tudo que você sempre quis e que a gente podia tentar, e essa foi a sua vez de sentir o nó na garganta.
a minha voz quase não saía, eu só queria chorar e acreditar que você poderia começar a querer de verdade.
e um beijo, eu queria um beijo.
- você merece alguém com mais certezas, que não tenha dificuldade pra se apaixonar e se permitir querer alguém, você disse.
- eu quero você, eu sinto desejo por você, eu admiro você, você é perfeita, eu achei que estava pronto, mas eu não consigo, simplesmente não consigo, você continuou.
o mindinho, o maldito mindinho.
- quando é, a gente sabe. eu te falei, tentando aceitar que se não era, é porque não seria comigo.
você acariciava o meu rosto, massageava meu cabelo, fazia carinho na minha orelha, passava a mão na minha bochecha e me olhava com essa expressão de tristeza.
eu sabia que você também não queria dizer adeus.
na minha cabeça, repetidamente tocava aquele refrão "so kiss me hard, cause this will be the last time that I let you", mas eu não precisava deixar nada, porque você sequer estava pensando nisso.
- quando for a pessoa certa, você vai sentir de novo e você vai conseguir se apaixonar e ter esse senso de urgência, querer passar mais tempo com a pessoa, você vai lembrar dela o tempo todo, vai desejar contar sobre o seu dia e vai querer ouvir sobre o dela. eu continuei, com a certeza de que não era sobre mim, embora eu ainda quisesse que fosse.
eu ainda queria um beijo seu e eu chorava pensando que eu nunca mais poderia (te) ter.
você me abraçou forte, eu não queria te soltar.
você me acariciava e, enquanto me abraçava, cheirava meu pescoço lentamente, eu não queria te soltar.
com os nossos corpos tão perto um do outro, minha respiração acelerava e o meu coração também.
eu te cheirava de volta, acariciando o rosto com o meu rosto, alisando as suas costas com as minhas mãos que não queriam te soltar.
- posso te dar um último beijo? meu corpo suplicava mais que minha voz, você sabia disso, o seu corpo também, eu sabia disso.
se o adeus era uma certeza, a gente não podia deixar que nossos lábios se separassem nunca mais ou a despedida viraria realidade.
ou o contrário, a realidade viraria mesmo uma despedida.
não era justo.
o beijo, nossas mãos, a roupa, o carro, a respiração, a lágrima.
não era justo.
não é justo.
eu ainda quero o seu beijo, o tempo todo.
mas eu já te soltei, mesmo ainda presa no seu abraço quando fecho os meus olhos.
eu já te soltei, mesmo quando eu penso em você nos meus sonhos.
eu já te soltei, porque eu entendi que pra eu poder te conhecer, você tem que me deixar entrar.
eu não sei qual foi o seu presente de aniversário quando decidiram que você precisava crescer.
eu não sei porque você não tem mais aqueles seus amigos que vestiam camisas de banda que gritavam letras que te importavam tanto, o que diziam?
eu não sei como foi a sua primeira vez.
eu não sei como foi a sua última vez.
eu não sei quando foi que você adormeceu.
mas eu sei que esse beijo que você diz sentir vontade nunca foi suficiente pra te acordar, pra te fazer querer ficar.
nem mesmo foi suficiente pra te fazer querer sair, fugir.
você não me diz que sente minha falta,
mas você vem e me diz que tem vontade de me beijar.
às vezes.
eu te pergunto se algo mudou desde a última vez e você diz que não sabe dizer se sim ou não, mas que tem vontade.
às vezes.
eu gosto que você tenha vontade, porque eu sei que eu tenho.
o tempo todo.
baby, I get mystfied by how this city screams your name.
a lagoa da pampulha vai ser sempre o nosso lugar pra mim, mesmo que não seja pra você.
eu ainda sinto sua falta,
eu ainda quero te beijar,
mas se nada mudou,
talvez eu precise evitar a lagoa da pampulha por um tempo, porque eu sei que as minhas mãos ainda procuram as suas.
talvez eu precise evitar a lagoa da pampulha por um tempo, porque eu sei que as luzes da cidades ainda me fazem pensar em como eu poderia passar as minhas noites fazendo qualquer coisa com você.